Oi pessoa. Tudo bem?
Faz um longo tempo desde o meu último texto. Para iniciar a nossa
“conversa”, observe a figura abaixo:

Créditos Raquel Portugal, 2017
Se a sua resposta foi “Uma espécie de ave”, tenho más notícias: você sofre
de um tipo especial de cegueira. A boa notícia é que você não está sozinho (a), a má
é que essa condição pode nos levar a extinção. Mas já possuímos um tratamento
simples e certeiro, mas em grande parte depende de você.
A cegueira botânica (no inglês seria plant blindness) foi descoberta ou melhor
nomeada em 1999 por dois autores norte-americanos (Wandersee, JH e Schlusser,
E.). Mesmo que não seja uma doença realmente, possui inúmeras manifestações
descritas. Se você não presta atenção às plantas que o rodeia, se acha que plantas
são inferiores a animais só porque não se movem ou que plantas servem somente
para fornecer oxigênio e alimento para os animais talvez seja melhor procurar
tratamento.
Figura 1
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Mas antes de falar de tratamento, vamos falar das causas e das
consequências. Segundo os autores, a cegueira botânica parece ter a ver como a
nossa visão funciona e como o nosso cérebro processa as informações visuais.
Conforme é exposto no trabalho “Toward a theory of plant blindness” (semelhante a
“Em rumo a uma teoria para a cegueira botânica, também disponível na internet, mas
em inglês), embora os nossos olhos possam captar até 10 milhões de bits por segundo
de informação visual somente 16 bits por segundo são realmente utilizados pela nossa
consciência. Isso quer dizer, que o nosso cérebro filtra e seleciona apenas pequena
parte das informações captadas pelos nossos olhos. E o resto das informações é
perdido? Pergunta interessante para outro texto…aguardem. Mas então como o nosso
cérebro escolhe que informação usar conscientemente?
Essa seleção parece seguir alguns quesitos: a imagem deve ter superfície e
limites bem definidos e seria melhor que tivesse movimento. Juntando esses dois
fatos, concluímos que outros animais vão chamar muito mais a nossa atenção do que
as plantas. Num cenário feito somente de plantas é difícil distinguir onde termina uma
e começa outra. Olhe para a figura A primeiro e depois para a B. Você entenderá o
que eu escrevo.

Vi só? Embora nas fotos você não veja nenhum movimento, o pássaro tem
limites e cores que o distinguem das plantas. Esse fato faz com que o seu cérebro
pare de “enxergar” as plantas e comece a priorizar as informações vindas dos
pássaros. De certa forma a nossa espécie sobreviveu até aqui por conta disso.
Imagine se os cérebros de nossos ancestrais priorizassem as plantas ao invés dos
predadores? Não teria sobrado nenhum ser humano.
Mas a cegueira botânica parece depender de mais alguns fatores. Um desses
fatores passa pela vontade política. O financiamento estatal a pesquisa em botânica
de base. Um exemplo disso é o que ocorreu no período imperial do Brasil: tanto D.
Pedro I quanto D. Pedro II eram grandes financiadores da botânica. Nesse período,
houve a abertura do Jardim botânico do RJ para a visitação a partir de 1822, a
produção da Flora Brasiliensis – livro com ilustrações das espécies vegetais
brasileiras – ou ainda com o envio de espécies ao redor do mundo.
Além desses fatores, a educação parece estar bastante relacionada com a
cegueira botânica, criando um círculo vicioso. Muitos professores de biologia parecem
ter tido formação em botânica insuficiente e por isso se tornam resistentes a transmitir
tais conteúdos, o que tornam os alunos resistentes a botânica tornando-os cegos às
plantas. Um levantamento realizado com 266 alunos do Ensino Médio de uma escola
no Recôncavo baiano mostrou que apenas 5% dos alunos parecem ter preferência a
botânica contra 30% com preferência a estudar o corpo humano.
Se essa cegueira parece não ser tão importante para você, é melhor pensar
novamente. A partir do momento que a maioria de uma população não consegue
reconhecer as plantas como seres vivos que compõem o planeta, possivelmente essa
população não consegue reconhecer os benefícios de se ter plantas por perto. Isso
se torna catastrófico quando a cegueira contagia as pessoas com o poder de tomada
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de decisão. Marcos Buckeridge em 2016 um artigo mostrando que as regiões centrais
e leste da cidade de São Paulo possuíam em 2015, ano da crise hidríca, baxa
cobertura vegetal. Se houvesse a cobertura vegetal fosse moderada poderíamos ter
um ambiente local com temperaturas mais amenas, mais úmido e com menor
quantidade de CO2 atmosférico. Isso por que uma árvore de grande porte pode
absorver grande quantidade desse gás bem como produzir cerca de 400 litros de água
por dia.
Mas e se fosse uma decisão numa esfera de poder ainda maior? A partir de
junho de 2019 vimos o que ocorreu por conta de, entre outras coisas, cegueira
botânica:

Hoje sabemos que a utilização de petróleo e as queimadas são as principais
causas do aquecimento global. Esse aquecimento global vai levar a mudanças
climáticas radicais que podem nos levar a extinção. Aquecimento global é um assunto
difícil e extenso demais para colocar aqui, por isso merece outro texto. Nesse texto o
assunto é a nossa cegueira em relação as plantas. Mas e como podemos tratar?
O tratamento é simples: um maior contato com as espécies vegetais que nos
circundam. Não é preciso comer, tocar ou cheirar as plantas próximas de você. Mesmo
Figura 3
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porque isso pode ser perigoso. Mas tente observar melhor o que está a sua volta.
Você já comeu tomate, uva ou maçã? Bebeu café ou caldo de cana? Mas quantas
vezes você já viu de que plantas essas coisas saem? Que tal se você começasse
assim? Parece que estou escrevendo para crianças, mas tenho certeza de que muito
adultos também nunca viram algumas dessas plantas. Eu por exemplo: embora eu
tenha cerca de 100 espécies de plantas em casa, nunca vi um pé de maçã.
Além disso, todos os autores citados dizem que a figura do mentor botânico é
muito importante para propiciar o contato com os vegetais. Mentor botânico nada mais
é do que a pessoa que apresenta a vida vegetal a uma outra. Geralmente são, pais,
tios, avós ou ainda professores. Para esses últimos, os autores destinam uma outra
forma de tratar a cegueira botânica: cursos de aprofundamento ou capacitação em
botânica. Tais mecanismos devem melhorar o contato das crianças e adolescentes
com os vegetais. Tornando-os mais interessados e mais críticos em relação ao que
os circundam e quem sabe, num futuro próximo, fazer com que grande parte da
biosfera seja enxergada. Embora no passado a cegueira botânica tenha nos salvado
da extinção, hoje tornar os vegetais visíveis é que, provavelmente, nos salvará de uma
catástrofe.
O que você achou do texto? Ficou bom? Quer comentar algo? Alguma
sugestão? Para o próximo texto, que tema é melhor, aquecimento global ou sentidos
e processamento de informações? Respostas, dúvidas ou críticas mande um e-mail
para divulga.rapp@gmail.com.